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Esse é um jogo escrito de trás para frente, de um lado para o outro, em zigue zague. E o leitor, como um jogador, pode escolher que caminho tomar nesse labirinto, ou bosque de caminhos que se bifurcam. Nos corredores laterais nossos convidados especiais comentam a partida.
Todos podem escrever, citar e indicar novos caminhos, nessa caixa de surpresas móvel e mutante. Envie suas sugestões através dos comentários abaixo de cada post. Siga os coelhos brancos.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Operário da linguagem

Como um poeta barroco, Arcimboldo explora as curiosidades da língua, joga com a sinonímia e a homonímia. A sua pintura tem um fundo de linguagem, a sua imaginação é propriamente poética: não cria os signos, combina-os, permuta-os, extravia-os – o que faz exatamente o operário da língua. (Barthes, O óbvio e o obtuso, 133)

Outono

Na figura do outono o olho é feito de uma pequena ameixa.
Em francês a prunelle (botânica) torna-se a prunelle (ocular).

Ele quer mostrar o nariz?







































A sua reserva de sinônimos oferece-lhe um ramo, uma pêra, uma abóbora, uma espiga, um cálice de flor, um peixe, um rabo de Coelho, uma carcaça de frango.

Quer mostrar uma orelha?






































Só tem de ir a um catálogo heteróclito donde tira um cepo de árvore, o reverso de um cogumelo, uma espiga, uma rosa, um cravo, uma maçã, um búzio, uma cabeça de animal, o suporte de uma candeia.

É uma barba que ele que dar a sua personagem?






































Eis aqui um rabo de peixe, antenas de camarão.

Será este repertório infinito?

Não, se nos mantivermos nas alegorias pouco numerosas que chegaram até nós; trata-se quase sempre de frutos, de plantas, de comestíveis. Mas só o conceito limita a mensagem;
a imaginação, essa, é infinita, de uma acrobacia cujo domínio é tal que a sentimos pronta a apoderar-se de todos os objetos. (Barthes, O óbvio e o obtuso, 141)

Quem foi Arcimboldo?

Nascido em Milão em 1527, Arcimboldo foi conde do Império e trabalhou quinze anos na côrte de Maximiliano e onze anos na côrte de Rodolfo II onde recebeu muito ouro e honrarias. Sua atividade foi muito além da pintura: compôs brasões, armas ducais, cartões de vitrais, tapeçaria, decorou caixas de órgão e propôs ate um método colorimétrico de transcrição musical, (segundo o qual uma melodia podia ser representada por pequenas manchas de cor num papel), entreteve príncipes, foi apresentador de partidas, inventou carrosséis.

As cabeças compostas, que ele fabricou durante vinte e cinco anos na côrte dos imperadores da Alemanha, tinham também a função de um jogo de salão. (Barthes, O óbvio e o obtuso. p.132)

Alicinações




Alice, entendida aqui como o caos-cosmos definido a partir das duas Alices de Lewis Carroll: Alice no país das Maravilhas (1865) e Através do espelho e o que Alice encontrou lá (1872), ainda é um grande enigma. Paradoxo, nonsense, jogo, labirinto. O País das Maravilhas e o País do Espelho não são espaços geográficos, construídos dentro de uma topografia linear e contínua, mas de quebra-cabeças, tabuleiros, espelhos, rupturas e deslocamentos. O universo se expande, se comprime e se inverte enquanto Alice perde e procura sua identidade, prestes também a perder a cabeça. Enquanto isso ela se move no terreno movediço da linguagem que se desmonta e revela suas armadilhas lógicas e semânticas.



Se o texto é assim, por que as suas ilustrações são em geral tão literais e unívocas?

A proposta da pesquisa Alicinações foi portanto a de ilustrar novamente as duas Alices, operando uma nova relação entre texto e imagem, na busca de uma aproximação de Alice em sua maior complexidade. Tendo como referência a obra de Deleuze, Lógica do Sentido, a pesquisa desenvolveu-se em duas etapas: dos corpos em profundidade aos acontecimentos de superfície.



Corpos em profundidade, os personagens das duas obras foram construídos através de montagens com objetos diversos, segundo seus atributos lógicos, nomes, significados incorporados pelo uso e características formais. Esses personagens dialogam com as figuras de Arcimboldo, inventários de objetos e gabinetes de curiosidades inusitadas.



Na segunda etapa os personagens criados foram então fotografados e digitalizados, e os acontecimentos de superfície foram desenvolvidos através de computação gráfica. Buscou-se recriar através de imagens, a lógica e o sentido do texto, abrindo assim o leque de referências e possíveis leituras para os diálogos, personagens, situações e espaços imaginários propostos nas duas obras. As ilustrações foram elaboradas através de colagens a partir das fotografias dos personagens, entre outras tantas possibilidades. Também foram utilizadas as ilustrações originais de Tenniel, segundo novas relações de intertextualidade. Como um jogo multifacetado de espelhos, refletindo diferentes possibilidades de leitura da obra segundo diferentes contextos históricos e culturais.



Jogos de linguagem, paradoxos lógico - semânticos, enigmas, múltiplos significados. Como num grande jogo, o objetivo é desnudar relações imprevistas, desvendar lógicas implícitas, repropor enigmas e paradoxos.