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Esse é um jogo escrito de trás para frente, de um lado para o outro, em zigue zague. E o leitor, como um jogador, pode escolher que caminho tomar nesse labirinto, ou bosque de caminhos que se bifurcam. Nos corredores laterais nossos convidados especiais comentam a partida.
Todos podem escrever, citar e indicar novos caminhos, nessa caixa de surpresas móvel e mutante. Envie suas sugestões através dos comentários abaixo de cada post. Siga os coelhos brancos.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Osman Lins



Em Osman Lins, seres compósitos, ambíguos e panlindrômicos, ou francamente paradoxais, invadem suas histórias.




































A obra de Osman Lins revela-se assim um estranho celeiro de seres compósitos: inexistentes, imperceptíveis, inaudíveis, insípidos, impalpáveis.



A função desses seres no texto é a de promover uma reflexão sobre o próprio texto. Um dos exemplos é o romance Avalovara cujo nome remete a um pássaro feito de muitos pássaros, uma possível alusão ao quadro Ar de Arcimboldo.



O pássaro aparece não exatamente ligado a história ele aparece e desaparece das cenas, sobrevoando os capítulos e aludindo a estrutura fragmentária do romance, composto de enredos recortados e sobrepostos, quanto ao tipo de composição das três figuras femininas principais que são descritas como mulheres híbridas, feitas ora de cidades, ora de pessoas, ora de palavras.


Nesses personagens Osman Lins desenvolve a sua teoria de animização do espaço, que não consiste no processo comum às fabulas e narrativas fantásticas em que se da vida aos objetos conferindo—lhes características humanas. A teoria de Osman Lins ao contrário consiste numa técnica peculiar de construção de personagem a partir de um aglomerado de objetos heterogêneos que migram do espaço discursivo para dentro dos personagens, constituindo-os.



A intenção do autor é bastante clara: não se trata de estabelecer meras comparações entre a figura humana e outros materiais: “que há de novo em comparar uma personagens a bichos repulsivos? O novo é amalgamar uma série de pequenos animais e com eles construir uma mulher, objeto ilusório de uma paixão rela”. O efeito visual alcançado através desse processo encontra um paralelo no efeito Arcimboldo, que constrói com os recursos da pintura, imagens de efeito lingüístico.



As pinturas de Arcimboldo são retomadas com os trocadilhos surrealistas do autor e a exploração de imagens paradoxais, explorando a ambigüidade entre os objetos reais e suas imagens, sejam elas lingüísticas ou iconográficas.

As personagens osmanianas são colagens heterogêneas semelhantes à técnica empregada por Arcimboldo. Ermelinda Maria Ferreira





Quanto a Rego, dois vultos de mulher se distanciam, e uma é Z.I. Clamo por seu nome, sigo-a ferindo os pés, ambas começam a correr, avanço decidido, agarro-a pelo braço. “Eu te amo!” Volta-se, cospe-me no rosto. Então vejo, vi, vejo então que ela é feita de bichos ajustados. Ouço um rumor frouxo, um ruflar de asas, Z.I. desfaz-se em pássaros noturnos, vespas, mariposas, besouros e morcegos. Avalorara, Osman Lins.


A Roos e as Cidades

Quando, afastado, segundo a visão ordinária do tempo, desta aventura dúbia, empreender falar de Roos, estarei repetindo, em certa medida, os nossos diálogos insuficientes. Darei sem esforço os traços próprios de Roos que surgem em outras mulheres: o sorriso fácil e a tendência a assumir sem transição uma atitude pensativa. (Aflige-a alguma lembrança pesada e indesejável.) Poderei, entretanto, descrever as cidades que flutuam no seu corpo como refletidas em mil pequenos olhos transparentes? Como dizer que penetro nesses olhos _ olhos ou dimensões _ e constato que as cidades, aí, são ao mesmo tempo reflexos de cidades reais e também cidades reais? Inumeráveis, íntegras, eis as cidades de Roos, erigidas nos ombros, nos joelhos, no rosto. Conheço, invasor, as suas ruas, seus edifícios desertos, seus veículos vazios, suas árvores, pássaros, insetos, flores e animais (nenhum ser humano), e os rios sob pontes frágeis ou magnificentes. Haia, Roma, Estrasburgo, Reims, Granada, Hamburgo. Sim, falar de tudo isso será refazer em outra direção, com idêntico malogro, os meus limitados diálogos com Roos. Avalovara


O Bibliotecário




Não seria a pintura um exercício de leitura?

Livro e pintura não se revestiriam de um mesmo processo?

Ver e ler não teriam um mesmo caminho labiríntico na tela de Arcimboldo?



Em O Bibliotecário (1566) Arcimboldo propõe uma reflexão sobre a leitura. No jogo de alegorias de livros com o espectador, o pintor traz para dentro do quadro metáforas do mundo do livro. É a pintura retratando o ato de ler. Ler, nessa perspectiva, seria um ato além do significante livro, apresentado no primeiro plano da tela.



O Bibliotecário, assim, vale-se do processo que articula a metalinguagem visual. Livros que remetem a livros, palavra que puxa palavra - título que sugere leitura. Os livros alegoricamente sugerem o mundo da leitura e do bibliotecário.



Brincando com significantes “livros”, Arcimboldo reflete sobre a relação


De qualquer forma, acentuam-se a força da leitura e o poder das palavras. A leitura, num primeiro momento, resumiria-se em livros. Com um olhar mais atento e apurado, o protagonista da tela parece apontar do outro lado da cortina, no segundo plano, uma outra proposta de leitura.



Leitura nesse outro momento do olhar, assumiria outro significado - algo mais crítico, labiríntico. A leitura apresentada como travessia ou caminho, busca situar o espectador em seu constante fazer no espaço e no tempo da moldura.

Com essas ações/pinceladas metalingüísticas, o artista faz a relação da leitura com o mundo. O significante “bibliotecário”, título-emblema da tela e duplo do significante “livro” aparece como espécie de espelho, artifício poético que permite reduplicar a função do livro na tela, instaurando-lhe a vertigem do reflexo da leitura, uma mise-en-abyme do próprio ato de ler.
(Barthes, O óbvio e o obtuso)

artista atual

Ecfrase

Francisco Guilherme de Almeida Jesus

A ecfrase é uma técnica retórica que corresponde a representação verbal de uma representação visual, como as cabeças compostas de Arcimboldo, como o poema “num bairro moderno” de Cesário Verde (1877).


(...) Subitamente – que visão de artista! –
Se eu transformasse os simples vegetais,
À luz do sol, intenso colorista,
Num ser humano que se mova e exista
Cheio de belas proporções carnais!?

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo orgânico, aos bocados.
Achava os tons e as formas. Descobria
Uma cabeça numa melancia,
E nuns repolhos seis enjetados.

As azeitonas, que nos dão azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças dum cabelo que se ajeite;
E os nabos – ossos nus, da cor do leite,
E os cachos d’uvas – os rosários d’olhos.

Há colos, ombros, bocas, um semblante
Na posição de certos frutos. E entre
As hortaliças, túmido, fragrante,
Como dalguém que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E como um feto, enfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras (...).